segunda-feira, 3 de maio de 2010

Dia 4 - Não sei dançar

Poema de Manuel Bandeira presente no livro Libertinagem, de 1930. Utilizo a edição de 2005 da Editora Nova Fronteira, onde se encontram editados juntos os livros Libertinagem e Estrela da Manhã, de 1936.

Uns tomam éter, outros cocaína.
Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria.
Tenho todos os motivos menos um de ser triste.
Mas o cálculo das probabilidades é uma pilhéria...
Abaixo Amiel!
E nunca lerei o diário de Maria Bashkirtseff.

Sim, já perdi pai, mãe, irmãos.
Perdi a saúde também.
É por isso que sinto como ninguém o ritmo do jazz band.

Uns tomam éter, outros cocaína.
Eu tomo alegria!
Eis aí por que vim assistir a este baile de terça-feira gorda.

Mistura muito excelente de chás...
Esta foi açafata...
- Não, foi arrumadeira.
E está dançando com o ex-prefeito municipal:
Tão Brasil!

De fato este salão de sangues misturados parece o Brasil...

Há até a fração incipiente amarela
Na figura de um japonês.
O japonês também dança maxixe:
Acugelê banzai!
A filha do usineiro de Campos
Olha com repugnância
Para a crioula imoral.

No entanto o que faz a indecência da outra
É dengue nos olhos maravilhosos da moça.
E aquele cair de ombros...
Mas ela não sabe...
Tão Brasil!

Ninguém se lembra de política...
Nem dos oito mil quilômetros de costa...
O algodão do Seridó é o melhor do mundo?... Que me importa?
Não há malária nem moléstia de Chagas nem ancilóstomos.
A sereia sibila e o ganzá do jazz-band batuca.
Eu tomo alegria!

(Petrópolis, 1925)

domingo, 2 de maio de 2010

Dia 3 - Aqui ficam as coisas

Dois fragmentos do poema Aqui ficam as coisas, de Carlos Nejar, presentes na obra Árvore do Mundo, publicada em 1977. Retiro os fragmentos da 2ª edição, também de 1977, pela editora Nova Fronteira.

Aqui ficam as coisas

X

Todas as minhas raízes
estão contigo.

Que a fome, a sede
se renovem.
E sejamos tão antigos
no amor e novos
junto aos meses.
Sim, o pátio dos meses.

O ar já não pousa
sobre as coisas humanas.
O fusível do ar.

O que está morto
está morto
está morto.
Mas todas as minhas raízes
estão contigo,

As flores que nunca morrem,
são essas que em ti se movem.

Todas as minhas raízes,
as minhas raízes.
Até as mais aéreas.

XII

Aqui ficam as coisas.

Amar é a mais alta constelação.

Os sapatos sem dono
tripulando
na correnteza-espaço
em que deitamos.

As minhas mãos telhado
no teu rosto de pombas.

Os corpos
circulando
na varanda dos braços.

É a mais alta constelação.

sábado, 1 de maio de 2010

Dia 2 - O menino desaparecido

Poema de Cassiano Ricardo publicado originalmente no livro A montanha Russa, de 1960. Utilizo a Antologia Poética, publicado pela editora do autor, 2ª edição, 1964.

O menino desaparecido

I

Passou a chuva. O céu gorjeia.
Meio sol, já perpendicular.
Mas a água ainda é um rio...
Ainda está de boca cheia.

Como saber onde o menino
está, sob um céu repentino?

Chegam máquinas dentadas,
perfuratrizes, estridentes,
pra furar o chão de concreto,
espirrando erros e "rr"
de terra pelo vão dos dentes.
Mas o menino já é, apenas,
um objeto secreto.

Como, em meio ao desatino,
saber onde está o menino?

A mãe do menino quer já,
entrar pelo cano do esgoto.
Como um a mulher marinha.
Como uma ave lacustre e ruiva
(ou subterrânea) irá,
tocada de celeste insania
saber onde o menino está.

Agarram-na os outros meninos
da rua, como anjos sujos,
que saíssem de alguma fossa
de um subúrbio de Betânia
e se agarrassem a uma Nossa
(Senhora) também suja,
como fulvos caramujos.
(Nossa Senhora de mão grossa)

E o menino, onde estará?

Ah, o menino está bem longe
com os seus barcos de papel.

Já vai seguido pelos peixes,
famintos, que os há prateados,
cor-de-rosa, cor de fel,
não importa qual seja a cor,
na derrota por onde, agora,
com os seus barcos de papel,
pequeno capitão, ele for.

Até d e s a p a r e c e r,
por fim - quem o saberá? -
num verde cego, universal.
No verde universo do sal.

Desaparecer na mesma água
em que um dia foi batizado
(pois a água do batismo
não é a mesma do abismo?)

II

Minha mãe, que era capaz,
como essa mulher subterrânea,
de morrer, por teu menino,
eu bem sei em que terra estás.
Mas tu, ó teu menino
que fui, onde estarás?