domingo, 2 de maio de 2010

Dia 3 - Aqui ficam as coisas

Dois fragmentos do poema Aqui ficam as coisas, de Carlos Nejar, presentes na obra Árvore do Mundo, publicada em 1977. Retiro os fragmentos da 2ª edição, também de 1977, pela editora Nova Fronteira.

Aqui ficam as coisas

X

Todas as minhas raízes
estão contigo.

Que a fome, a sede
se renovem.
E sejamos tão antigos
no amor e novos
junto aos meses.
Sim, o pátio dos meses.

O ar já não pousa
sobre as coisas humanas.
O fusível do ar.

O que está morto
está morto
está morto.
Mas todas as minhas raízes
estão contigo,

As flores que nunca morrem,
são essas que em ti se movem.

Todas as minhas raízes,
as minhas raízes.
Até as mais aéreas.

XII

Aqui ficam as coisas.

Amar é a mais alta constelação.

Os sapatos sem dono
tripulando
na correnteza-espaço
em que deitamos.

As minhas mãos telhado
no teu rosto de pombas.

Os corpos
circulando
na varanda dos braços.

É a mais alta constelação.

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